ironia, ainda que tardia

Thursday, April 30, 2009

Sandices

Daniel Pereira Frazão

Tenho predisposição à loucura,
Sou aberto ao desatino,
A insanidade
É meu estado de espírito.
Dou asas à imaginação
E ouvidos a sandices,
Às maluquices
Que outros dizem,
A tudo o que penso
E mais um pouco.
Estou louco da vida,
Fora de esquadro.
Quanto mais eu vivo
Mais eu enlouqueço,
Mais dinheiro eu rasgo,
Mais camas incendeio.
Solto fogo pelas ventas,
Transpiro,
Inspiro a tua loucura.
Fico pinel
E piro cada dia mais,
Arrebento a boca do balão.

Sangue de Baco

Daniel Pereira Frazão

Um filete de sangue
Escorre no canto da boca:
Romanée-Conti.
O lábio toca,
A boca sorve
O conteúdo da taça:
Malbec.
Há um certo prazer,
Uma embriaguez incerta:
Pinot-Noir.
O sangue agora
Mancha nossos trajes sumários,
Dá um tom de bordeaux
À nossa lascívia:
Shiraz.
Meu sangue é da melhor safra,
Azul,
Talvez Merlot,
É seco,
Frutado,
De aroma agradável:
Cabernet Sauvignon.

Wednesday, April 29, 2009

Samba em descompasso

Daniel Pereira Frazão

Desisti de dar bandeira,
Já perdi meu rebolado,
Meu samba já não é exaltação.
Te tirei do meu enredo,
Já rasguei a fantasia,
Abro alas para outro coração.
Deixo o corso, a avenida,
Levo o recuo à bateria,
Tiro sarro do seu samba-canção.
Parei no meio do desfile,
Mestre-sala do meu amor,
Seu reinado já é pura ilusão.
Sua rima perdeu o compasso,
Seus passos estão fora de ritmo,
Seu refrão está fora de tom.
E ao passar pela Apoteose,
Linda, leve e loura,

Subo de novo no salto,
Dou entrevista na televisão.

Tuesday, April 28, 2009

Olhos dos Outros

Daniel Pereira Frazão

Estrelas ardem no céu
Como pimenta
Nos olhos dos outros,
Como à vista
Custa os olhos da cara,
Como uma luz
Que se acende de repente
A ponto de nos cegar
Por completo.
São estrelas que ardem
E que ferem,
Como centelhas que
Queimam a pele,
Dão uma dor que lancina,
E que não se repele,
Não se evita,
Muito menos se esconde,
Está diante dos olhos
De todos,
Mesmo daqueles
Que sonham acordados,
Está aos olhos da multidão.

Thursday, April 16, 2009

Fagia

Daniel Pereira Frazão

Vou te comer
De garfo e faca,
Engolir
Sem mastigar.
Te colocar
Em pratos limpos
Pouco antes
Do jantar.
Vou te por
Na minha boca
E assim
Saborear
O doce gosto
Do teu corpo,
Teu suor
Me envenenar,
Sentir
Tua pele inteira,
Sem querer
Me saciar.

Gênesis

Daniel Pereira Frazão

Monte de Vênus
Pomo de Adão
Vulva
Pau em riste
E perversão.
Glande
Corpo de Eva
Lascívia
E secreção.
Cona estreita
Grandes lábios
Ventre
E ereção.
Coxas
Pernas abertas
Jeito de moça
E pulsação.
Beijos
Língua
Putaria:
Felação.
Bendito fruto
Do teu ventre:
Febre e furor
Transpiração.

Wednesday, April 15, 2009

Baixo ventre

Daniel Pereira Frazão

Sou o pecado que mora
No baixo do teu ventre,
Sou agora um veneno
Debaixo da tua língua.
Eu sou a palavra que fere,
Sou a arma do homicida,
Já fui a viúva que chora,
Sou você pra toda vida.
Sou a fumaça que sopro,
O cigarro que você fuma.
Eu sou a barba que roça
O cerne da tua loucura.
Sou a fervura da pele,
A febre que enlouquece,
Sou o remédio que mata,
Sou uma doença sem cura.
Desisti do meu passado,
Deixei o futuro pra depois,
Sou comparsa do infinito,
Cúmplice do teu presente.
Sou o passar das horas,
Sua dose diária de ternura,
Sou uma pitada de sal
Sobre a tua derme crua.
Sou uma espécie de frêmito,
O instante do teu gozo,
Tenho a medida do sexo,
Meu tesão não tem censura.

Arístocles Platão

Daniel Pereira Frazão

A vida acontece nas entrelinhas,
Um pouco acima das palavras,
Logo abaixo do impensável,
Onde contraria o impossível.

Já não cabe à realidade
Explicar o seu propósito
Nem dizer se faz sentido.

Seu lugar é o terreno das ideias,
Sua origem não se explica.

Nasce no instante do sonho,
Que só às vezes realiza,
Segue ao longo de si própria
Até que deixa de ser vida.

Tuesday, April 14, 2009

Outra poesia

Daniel Pereira Frazão

Poesia filha da puta,
Teima permanecer oculta,
Como oculta agora é minha essência
Antes tão à flor da pele.

Versos, onde se esconderam?
Por que não rimam como antes?
Roubaram todo o lirismo
Com que eu fingia poesia.

Hoje feia, casta, recatada,
Já teve seus momentos de cio,
Dorme agora num hades distante,
Foi para a puta que pariu.

Monday, April 13, 2009

Natureza morta

Daniel Pereira Frazão

Sou terreno fértil para o imponderável,
Um solo arado pelo inconcebível,
Tenho húmus logo abaixo da epiderme.

Sou o fruto que guarda a semente,
Mesocarpo suculento nos teus lábios,
O caroço que você cospe de repente.

Sou a flor que agrada o teu olfato,
Sou cálice, sépalas, sou androceu:
Sexo oculto pela fórmula das flores.

Sou o vento que transporta o pólen,
E também o sol que sintetiza o alimento,
Sou em suma a minha própria natureza.